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  • Foto do escritorEstúdio Arco

Algumas notas sobre o Barroco Mineiro

Atualizado: 11 de jun.

Para alguns, o barroco em Minas teve curta duração, indo de 1730 a 1760, sendo logo em seguida sucedido pelo rococó. Para outros, o rococó é em si uma extensão do barroco, numa forma mais leve e evoluída. De fato, barroco e rococó dividem elementos em comum, porém o que os diferenciam de maneira decisiva é a mentalidade por trás dos homens que realizaram suas obras.


Se no período barroco o artista usava as composições para representar dor, penitência, abnegação e devoção, no período rococó o sentimento era de júbilo, festa e agradecimento. Como muito bem resumiu a historiadora Myriam Andrade Ribeiro:


“Em um ambiente de luxo refinado, no qual as cintilações douradas dos ornatos são postas em evidencia pelos fundos claros ou em tonalidades suaves, os efeitos pictóricos se unem aos da talha e azulejos configurando uma decoração suntuosa, simultaneamente leve e graciosa, destinada a produzir uma sensação básica de bem-estar que predispõe à oração na esperança e na alegria, mensagem de serenidade que caracteriza o rococó religioso em oposição ao barroco, dominado pelos efeitos dramáticos e um sentimento trágico de existência.”


Detalhe do frontão da igreja de N. S. do Carmo, em Ouro Preto. Foto: Estúdio Arco.

O fato é que o barroco em Minas adquiriu um caráter único, gracioso e expressivo, abrindo um novo capítulo na história. Segundo o crítico Alberto Manguel:


“[...] o barroco criou raízes quase sem história: adquiriu as suas próprias proporções, desenvolveu-se em todas as direções, refletiu cores e adotou texturas que os artistas europeus não podiam ter previsto. A madeira brasileira, o ouro brasileiro e a pedra-sabão brasileira ditaram os seus próprios termos...”


Esse estilo próprio encontrou seu ápice na igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, um jogo de côncavo e convexo que seduz o espectador. Ainda nas palavras de Manguel:


“A pintura e os entalhes se alternam numa tentativa explícita de desnortear o olhar, forçando-nos a perder a confiança tanto no mundo tangível dos sentidos como no mundo tangível das intuições.”




Uma igreja era realizada em etapas de contratação por serviço. Pedreiros e canteiros cuidavam das bases, seguidos de carpinteiros, marceneiros, entalhadores, escultores e pintores. Depois eram chamados os louvados, pessoas de reconhecido bom gosto e apuro estético, para julgar e corrigir eventuais falhas. Não se considerava os pintores e escultores, classe onde entravam nomes como Aleijadinho e Ataíde, melhores ou superiores do que os pedreiros e mestre de obras, uma vez que a ornamentação artística do templo era vista apenas como mais uma etapa da construção e parte de todo um conjunto.


Evolução barroca: A palavra rococó vem do francês ‘rocaille’, rocalha, uma concha irregular e cheia de reentrâncias. Este estilo floresceu na França, Alemanha e na Áustria e tem como características a preferência pela curva no desenho arquitetônico, a ornamentação leve com fundos claros, o pouco uso de douramento e o emprego de elementos florais nas esculturas. Em Minas, a pedra-sabão é um elemento inconfundível.

Não havia regulamentação para as profissões relacionadas às artes, lecionadas informalmente por mestres em ateliês particulares, com foi o caso de Ataíde, Antônio Fernandes Rodrigues e muito possivelmente Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Os ateliês representavam fonte de renda para os mestres, emprego para os pupilos e mão de obra fácil em caso de obras maiores, onde empregavam-se grandes esforços para a pintura de um forro ou criação de inúmeras imagens, a exemplo do santuário de Congonhas.


Detalhe dos retábulos da Matriz de N. S. do Pilar de Ouro Preto. Foto: Estúdio Arco.
Detalhe dos retábulos da Matriz de N. S. do Pilar de Ouro Preto. Foto: Estúdio Arco.

Acompanhando a evolução do estilo na Europa, o barroco mineiro coincide com o auge da extração do ouro nas Minas Gerais. A arquitetura civil mantém sua forte inspiração na casa portuguesa, enquanto a arquitetura religiosa desenvolve-se livremente de acordo com os materiais disponíveis.


Diante da competição das Ordens Terceiras, em especial as de Nossa Senhora do Carmo e de São Francisco de Assis, criaram-se modelos e estilos cada vez mais ousados e harmoniosos. A planta da igreja dividiu-se então nos seguintes setores: nave (para os fiéis), capela-mor (onde eram realizadas as cerimônias sagradas), sacristia (onde eram guardados os aparatos), torre (que poderia ser isolada do corpo da igreja ou integrada a ela) e capelas/altares laterais (onde ordens menores e confrarias mantinham seus altares).


Arte brasileira: O barroco mineiro tem por característica os seguintes quesitos: abundância da ornamentação interior dos templos, uso da talha revestida em ouro ou policromada, tendência para a curva e arredondamento das plantas das igrejas e a mistura entre sagrado e profano nas pinturas e esculturas.

Nas primeiras fases do barroco são gastos quilos de ouro em folhas para o douramento de altares, frisos, anjos e pórticos. Este é um período de formação de profissionais da região. Até então todas as obras eram realizadas por mestres portugueses. Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho, José Fernandes Alpoim, Antônio Pereira de Souza Calheiros e muitos outros, passariam adiante as técnicas que seriam empregadas e modificadas por diversos arquitetos e projetistas nos projetos seguintes.


Em meados de 1750, influenciado pelos arquitetos italianos Lorenzo Bernini e Francesco Borromini, o barroco mineiro incorporou desenhos curvos e torres levemente recuadas. As igrejas do Rosário em Ouro Preto e de São Pedro em Mariana são os dois exemplos do uso da planta elíptica.


A necessidade de curvas e leveza e a falta de pedras nobres como o mármore levaram a utilização da pedra-sabão na decoração dos templos. A pedra-sabão era abundante, de fácil manuseio e criava efeitos graciosos nas composições decorativas. Em meados de 1760, o ouro nas minas começou a escassear e o barroco adaptou-se com plantas mais funcionais e menos rebuscadas. Esse foi o início do Rococó, com elementos mais leves, menos ouro e mais harmonia, tanto externa quanto interna.



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